Quinta-feira
Jan122012
Empresas jornalísticas apostam em startups de tecnologia
Quinta-feira, Janeiro 12, 2012 at 11:27AM 
Christian Marra
Com o crescente papel da tecnologia em todas as etapas do trabalho jornalístico, é natural que as empresas do setor passem a investir, cada vez mais, em tecnologias aplicadas ao seu negócio. Elas estão aprendendo que não dá para bater de frente com a revolução tecnológica; é preciso surfar na mesma onda, antes que ela as derrube.
Por isso, num movimento ousado, algumas delas estão apostando em incubar pequenas startups de tecnologia, que desenvolvem soluções aplicadas ao negócio jornalístico. Recentemente, foram anunciados interessantes movimentos desse tipo.
O grupo de mídia Philadelphia Media Network (que edita os jornais The Philadelphia Inquirer, Philadelphia Daily News e o portal Philly.com), por exemplo, anunciou o investimento em três pequenas startups que passarão a funcionar dentro de suas instalações: uma delas focada no desenvolvimento de interfaces para a rápida criação de aplicativos mobile, outra centrada num aplicativo para digitalizar cupons impressos de descontos e outra que desenvolve um aplicativo Web orientado a promover enquetes eleitorais junto aos leitores.
Ainda nos EUA, o grupo Digital First Media, sediado em Nova York e que controla o MediaNews Group e o Journal Register Company – que agregam numerosos veículos jornalísticos espalhados pelo país – anunciou, em dezembro de 2011, que neste ano investirá em startups de tecnologia para encontrar soluções para conteúdos, publicidade e análises de audiência.
O Financial Times, por sua vez, anunciou há poucas semanas a aquisição da pequena empresa de tecnologia que desenvolveu seu Web App para dispositivos móveis em HTML5, e que virou um paradigma mundial pois permitiu-lhe escapar das restrições impostas pela Apple em sua loja de aplicativos.
Outro caso é o do New York Times, que já há um certo tempo investe no seu próprio laboratório de tecnologias aplicadas ao jornalismo, conhecido como projeto beta620. Outra aposta voltada fundamentalmente ao desenvolvimento tecnológico.
Tecnologia não é o cerne da atividade jornalística: o coração da empresa é e sempre será a Redação, o talento do jornalista, a qualidade dos conteúdos elaborados. Mas a tecnologia está cada vez mais presente em todas as etapas desse trabalho: na apuração, na redação de textos, na edição, na distribuição, etc. Ela afeta tanto o trabalho dos repórteres e editores quanto dos profissionais do comercial. Especialmente quando se fala em distribuição da informação, conquista de audiências, interação com o leitor, envolvimento do leitor como fonte, técnicas de apresentação dos conteúdos, entre muitas outras formas.
Se durante muitas décadas as empresas informativas funcionaram num regime basicamente de relações entre o Editorial e o Comercial, vislumbramos um cenário que caminha para um tripé Editorial + Comercial + Tecnologia. Seu protagonismo é crescente, e isso significa romper uma cultura centenária de processos internos.
Há pouco tempo conversei com uma jornalista que visitou as instalações do The Guardian, em Londres. Ela me contou que a mentalidade por lá é parecida com a de uma empresa do Vale do Silício, na Califórnia, a Meca das empresas de alta tecnologia de todo o mundo. Programadores, jornalistas e executivos fazem reuniões periódicas para discutir novas ideias, bolar novos produtos e serviços, num grande brainstorm para que a empresa encontre soluções inovadoras. O resultado disso é a presença do Guardian em todo tipo de plataforma digital nos dias de hoje. Seu aplicativo The Guardian on Facebook atrai leitores que antes não liam seu noticiário, conquistando assim novas audiências – muitas delas, jovens. É a inovação originando resultados comerciais.
Mathew Ingram, articulista do site GigaOM, já havia levantado essa bola em meados de 2011. Segundo ele, inovação é a palavra de ordem nas empresas jornalísticas que querem sair da mesmice. Ele defende a ideia de que as empresas jornalísticas têm muito a aprender com as startups tecnológicas.
John Paul Titlow, que também discutiu o papel das empresas jornalísticas como incubadoras de startups, afirma que essa estratégia é, no mínimo, uma grande jogada de marketing: muda radicalmente a imagem de uma empresa com décadas de tradição no impresso.
Mas não basta contratar um enorme time de programadores, que gastarão seu tempo criando todo o tipo de ferramentas e dispositivos revolucionários. Apostar em tecnologias, sem que haja diálogo com os editores e os executivos da área comercial, é um investimento inútil. Há jornais no Brasil (que não são pequenos) cujo setor comercial mal sabe vender anúncios para sua página web. A convergência tecnológica não ocorre só na redação; deve envolver também o comercial. O tripé precisa estar bem assentado.
Apostar em tecnologia é um movimento crucial nos dias de hoje. Mas é importante que haja interlocutores à altura nos demais setores de um jornal. Em resumo, que a cultura digital permeie todas as instâncias da empresa. Nota-se o quanto é imprescindível que os profissionais do futuro - praticamente em todas as áreas - tenham um mínimo de desenvoltura para manusear - ou no mínimo dialogar - com os profissionais da tecnologia. Não adianta nadar contra a corrente, por mais que ela possa despertar todo tipo de alergias. O futuro passa inevitavelmente por aí.









Reader Comments (1)
Christian,
Ótimo artigo e excelentes argumentos em relação à convergência tecnológica. Parabéns!
Fico feliz em saber que há pessoas, como nós, que acreditam nesse movimento em que a inovação deve passar por todos os departamentos.
Um forte abraço.