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Quarta-feira
Set212011

Bases para o planejamento de projetos em mídias móveis


(Fotos: Elza Albuquerque)Christian Marra

Neste artigo estão expostas as principais ideias que foram debatidas em minha palestra no programa Master em Jornalismo Digital, do IICS, em São Paulo (foto), realizada no dia 16 de setembro.

Algumas redações pelo Brasil já começam a criar equipes dedicadas a projetos para informação jornalística em dispositivos móveis. As empresas sabem que atuar nessas novas mídias é um caminho sem volta, e buscam ganhar uma experiência que, ainda que não traga resultados em curto prazo, mais adiante trará, sem dúvida, uma enorme vantagem competitiva. Elas sabem que é preciso aprender, desde já, a qualificar profissionais, contornar problemas de tecnologia, conhecer hábitos de leitura do seu público, identificar que conteúdos oferecer e de que maneira, encontrar um modelo de negócio para rentabilizar esses projetos, entre outras inúmeras lições que só a experiência proporciona.

E nessas redações começa a surgir um profissional com um novo perfil, específico para atuar em tais projetos: o Analista de Produto para Dispositivos Móveis. O nome da função pode variar, mas seu papel passará a ser essencial nas novas equipes de planejamento de projetos de comunicação. Sua função é dialogar com os responsáveis pelo jornal, pelo website, por um programa de TV, etc., estudando como o produto informativo para smartphones e tablets irá complementar o pacote de informações a ser oferecido ao público.

Não é uma tarefa simples. A presença de um analista de produto para dispositivos móveis é um elemento a mais a atuar nos processos internos de uma empresa informativa. Isso implica num redesenho desses processos, que passarão a incluir este novo integrante a partir de agora. Mudanças desse tipo são sempre complicadas, e só se ajustam após numerosos esforços de tentativa e erro.

Entre as capacidades requeridas a esse profissional, poderiam ser listadas inúmeras, evidentemente. Sintetizando em alguns aspectos fundamentais, pode ser destacada a necessidade de um domínio de questões relativas a conteúdo, tecnologia e negócio, sempre orientadas ao modus operandi das mídias móveis.

De fato, um profissional desse tipo, numa empresa informativa, precisa mesclar essas habilidades. É necessário compreender questões editoriais, ter faro jornalístico, dominar os fundamentos da tecnologia embarcada em dispositivos móveis (de forma a tirar o máximo proveito das suas funcionalidades), além de uma visão comercial que lhe permita testar um formato rentável para o negócio (talvez o mais difícil até agora).

Conteúdos

Com relação a conteúdos, o analista deve sempre planejá-los levando em conta a variável “mobilidade”: quais conteúdos podem ser relevantes a alguém que não dispõe de nenhuma outra mídia para encontrar informação, e que pode estar em qualquer lugar? A mobilidade permite atingir a audiência seja lá onde ela estiver. O que é relevante oferecer ao usuário, de forma que ele possa obter essa informação em qualquer lugar que esteja?

Como é lógico, projetos para dispositivos móveis incluem tanto smartphones quanto tablets. E como eles são diferentes – especialmente quanto às dimensões de cada um –, um projeto não pode ser igual para ambos. Cada projeto deve levar em conta os recursos tecnológicos e as limitações que cada um possui.

Projetos para smartphones (seja ele um aplicativo ou site mobile), em virtude das limitadas dimensões de suas telas, podem ser mais enxutos, objetivos, focados num determinado conteúdo ou finalidade. Podem ser mais segmentados, oferecendo uma informação ou um serviço mais dirigido. Não se pode pensar em portais de notícias embutidos num smartphone. É muita informação para um espaço pequeno, e isso compromete a navegação e a obtenção da informação desejada. Nos tablets, tais conteúdos podem ser mais amplos. Em resumo: projetos diferenciados para cada uma dessas mídias.

Aplicativo da EPTV explora a câmera do iPhone e estimula as contribuições dos usuários.E ao planejar conteúdos, os aplicativos mobile oferecem a ótima possibilidade de serem integrados às funcionalidades dos aparelhos. Podem tirar proveito de suas câmeras (como neste caso da EPTV, de Campinas, da imagem ao lado), de suas ferramentas de compartilhamento nas redes sociais, do GPS, da oferta de mapas e rotas de deslocamento nas vias, de calculadoras, das ferramentas de email, do calendário, do acelerômetro, entre muitas outras. Explorando bem tudo isso, o resultado costuma ser útil e interessante ao usuário. Os exemplos que poderiam ser citados são inúmeros.

Tecnologia

Quanto às questões tecnológicas, a primeira decisão é definir que tipo de projeto é o mais adequado. Um aplicativo? Um site para navegadores nativos dos smartphones? Os dois? Ou arriscar um projeto em HTML5, de modo a se criar um aplicativo web? Logicamente, dominar estas tecnologias é o ponto de partida para este tipo de definição.

Além disso, a criação de aplicativos supõe contornar um gargalo habitual: a disponibilidade de profissionais da área de TI. Toda empresa tem a sua equipe, mas ela normalmente está sobrecarregada de trabalho. Desenvolver um aplicativo que seja abastecido por informações online depende também dessa equipe, pois é necessário criar um serviço web para gerenciar os conteúdos do aplicativo. É uma importante questão que deve entrar na pauta do analista de produto.

Negócio

E por fim, esse analista precisa ter também a visão do negócio. Conhecer o modelo de micro-pagamentos das lojas de aplicativos, os valores que ficam como “pedágio” para as lojas oficiais de aplicativos, definir se o serviço será gratuito, pago, parcialmente pago ou contará com publicidade, identificar eventuais patrocinadores, avaliar seu potencial de mercado, conhecer os hábitos de uso por parte do usuário, analisar métricas de uso, etc.

Vale acrescentar – e essa conclusão é fruto de vários debates no mundo acadêmico e empresarial – que não se pode hoje pensar num modelo de negócio definitivo, padronizado, tal como sempre funcionou nas mídias tradicionais. Nos dias de hoje, com o rápido avanço da tecnologia – e que sempre tem um impacto nos serviços jornalísticos –, lidar com essas mudanças de cenário virou algo normal, e não extraordinário.

O modelo de negócio que funciona hoje, para um determinado projeto, pode não funcionar mais daqui a um ano ou dois. O modelo hoje é variável, dinâmico, tal como a tecnologia. Costumo me referir a ele – como já ouvi de um especialista na área, numa ocasião – como um “modelo beta”, ou seja, um modelo em “versão beta”, que não é definitivo. Ele está em desenvolvimento permanente, e sua regra varia conforme o período. Isso exige criatividade e originalidade o tempo todo.

Em resumo, nesses três âmbitos pesam, em linhas gerais, grande parte das demandas de um analista de produto para mídias móveis. Um profissional que será cada vez mais comum nas redações, embora ainda escasso.

 

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