Onde está a reportagem na internet?
Segunda-feira, Março 8, 2010 at 11:36AM 
“Ser testemunha dos fatos significa estar presente. Nenhum buscador na internet consegue transmitir o odor de um crime, o tremor no ar, os olhos que ardem, os ecos de um grito.”
“Nenhum buscador de notícias vai lhe falar sobre a cidade devastada suspirando ao anoitecer, nem dos gritos desafiadores ouvidos noite adentro. Nenhum milagre da tecnologia pode reproduzir essa sensação de boca seca que o medo causa. Nenhum algoritmo vai capturar a dignidade sem alarde, não vai provocar a carga de adrenalina que se funde com a coragem nem expor as marcas ainda frescas de uma chicotada.”
As palavras de Roger Cohen, colunista do The New York Times, em artigo traduzido no Estadão, expressam muito bem o espírito da reportagem de qualidade. Não há tecnologia capaz de imitar a realidade de onde a notícia acontece. Não há máquina capaz de traduzir as sensações que só o homem, presente onde os fatos ocorrem, é capaz de reproduzir. Não há nenhum “Google News” da vida que faça isso.
É uma pena que ainda seja raro este tipo de abordagem no jornalismo na internet. Reportagens de alto nível, nas quais o repórter está lá, presente na notícia, falando com pessoas, experimentando sensações, enfrentando riscos e apuros, quase não são vistas nos meios digitais. Há alguns casos pontuais, como os dos correspondentes em locais de guerra que manejam bem as ferramentas digitais. Mas eles ainda são exceção à regra.
Prevalece ainda, de longe, na internet, a informação em tempo real, curta e objetiva, tal como a de uma fria agência de notícias. Esse informação tem sua relevância, é verdade, e realmente deve ser oferecida. A internet é uma mídia que possibilita isso.
Mas não pode restringir-se só a essa postura de agência de notícias. As grandes reportagens precisam entrar na pauta. E com até mais vantagens que os meios impressos. Suas características multimídia favorecem uma reprodução mais real dos fatos do que o jornal e a revista. A linguagem da internet cai como uma luva para isso.
Não seria difícil apontar os motivos dessa carência de reportagens na web. Vão desde o pouco empenho em sair à ruas perseguindo a notícia, passando pela limitação dos jornalistas em manusear ferramentas tecnológicas para a publicação de reportagens elaboradas, e inclui a limitação de recursos dos meios digitais.
Tudo isso contribui para que, até hoje, não existam nomes de grandes jornalistas que tenham feito fama só na web, passados quase 15 anos de seu surgimento como suporte de mídia. Os que se destacam hoje ainda são jornalistas consagrados em outras mídias, como pode ser facilmente constatado. Portanto, há ainda um bom caminho pela frente para ser percorrido. Mas as possibilidades que esse caminho oferece são fantásticas.
Ao mesmo tempo, tudo isso explica o porquê da mídia impressa preservar seu prestígio na sociedade. Jornais e revistas possuem muito mais credibilidade junto ao público (as pesquisas junto ao público sempre confirmam isso) do que os meios digitais. Por isso, discordo dos que profetizam que os meios impressos estão com os dias contados. Eles ainda têm muita força (basta ver o impacto de suas reportagens nos sucessivos escândalos do Senado). Jornais ainda são leitura obrigatória. Por mais que os meios digitais avancem. Mas estes ainda têm muito o que evoluir.










Reader Comments (1)
Reportagens de alto nível, nas quais o repórter está lá, presente na notícia, falando com pessoas, experimentando sensações, enfrentando riscos e apuros, quase não são vistas nos meios digitais. Há alguns casos pontuais, como os dos correspondentes em locais de guerra que manejam bem as ferramentas digitais. Mas eles ainda são exceção à regra.?
saludos