Christian Marra
Conteúdos jornalísticos tendem a ser pautados por três personagens na era digital: Editores, redes sociais e tecnologia. Ao menos é o que parece até o momento, salvo alguma nova revolução que nos pegue de surpresa – o que já está virando rotina.
Se os editores continuarão sendo imprescindíveis, por que esse título provocativo? Na verdade o editor nunca saiu de cena. Ele não precisa “voltar”, porque afinal, nunca “foi”.
Quem “matou” o editor foram as profecias catastróficas de que o jornal do futuro seria todo editado por computadores. Isso ocorreu sobretudo após a popularização de serviços como o Google News, cujos misteriosos algoritmos traziam aos leitores resumos das principais notícias – e os internautas pareciam dar-se por satisfeitos.
Em agosto do ano passado, o Google News jogou a toalha. Na homepage de sua versão dos EUA surgiu uma seção denominada “Editors´ Picks". Nela, as notícias em destaque em vários websites – o que corresponde ao trabalho do Editor – passaram a ser exibidas. O Google News deixou de ser um serviço 100% robotizado.
Por isso, não há dúvidas que o trabalho do editor está mais vivo do que nunca. Ele jamais será substituído por máquinas. O bom trabalho jornalístico conta com a emoção, com a sensibilidade, o instinto informativo que um computador, por mais avançado que seja, jamais poderá ter. O Google News pode ser útil, mas não é um produto jornalístico.
O PAPEL DA TECNOLOGIA
Na prática, o que vemos é o surgimento de vários serviços de “curadoria tecnológica”, que até fazem bem o seu papel. Mas falta-lhes o toque humano, indispensável no trabalho jornalístico.
Cito um exemplo: o aplicativo Zite, no momento disponível apenas para iPhone, iPad e para o TouchPad, da HP. O Zite é uma revista personalizável, que agrega conteúdos de vários sites. Se você quiser ler, por exemplo, notícias sobre “redes sociais”, ele faz uma ótima seleção de conteúdos. Para aprimorar a seleção, ele incorpora comandos para informar se tal matéria foi relevante ou não. Conforme a resposta, ele reconfigura as futuras seleções. Tudo isso com um design muito bonito, que torna a leitura e a navegação bem agradáveis.
Falta ao Zite, contudo, o trabalho do editor. Ele traz ótimas notícias sobre os assuntos da preferência do usuário, mas não há hierarquia, não há sugestões de relevância de notícias. Todas são apresentadas com igual destaque, e não é fácil saber quais realmente são as melhores.
Em agosto de 2011, o Zite foi comprado pela CNN (fato que foi bem relatado no blog do colega Tiago Dória). O interesse era evidente: a sua solução tecnológica. Aliás, há pouco mencionei, em outro artigo, o quanto as empresas jornalísticas estão apostando em startups tecnológicas, seja investindo nelas ou adquirindo outras. Se a CNN absorveu o Zite, é porque aposta no crescente papel da tecnologia.
Há pouco tempo, revendo uma apresentação dos futuros projetos da BBC inglesa, um dos slides me chamou a atenção. Era o slide 17, e que está reproduzido na imagem. Nele a BBC mostrava, em junho de 2011, os pilares de sua estratégia de conexão com a audiência, e que podem ser traduzidos como: Editorial + Algoritmos + Redes Sociais.
Salvo alguma nova revolução imprevisível, o cenário para os próximos anos tem tudo para ser uma combinação desses aspectos. O trabalho jornalístico não dispensará jamais o papel do editor (tanto que surge em primeiro lugar nessa descrição), mas este será cada vez mais complementado por ferramentas tecnológicas e pelo poder galopante das redes sociais.
O PODER DE INFLUÊNCIA DAS REDES SOCIAIS
Estas redes, por sua vez, também não param de crescer em protagonismo. Um trabalho jornalístico de costas ao que se comenta nas redes sociais está desconectado da realidade. Por certo, as redes sociais estão pautando cada vez mais as mídias tradicionais. Lá as notícias se espalham mais rápido, e muitas vezes, é a primeira fonte informativa de um determinado acontecimento.
Monitorar as redes sociais é uma prática hoje consagrada. Há vários serviços especializados nisso, sendo que um dos mais recentes e mais promissores é o Storify. Ele permite fazer buscas por palavra-chave em redes sociais como Facebook, Twitter, You Tube, Flickr, Instagram, entre outras. Assim, o usuário pode extrair dessas redes informações sobre o que está sendo falado sobre um tema, e de uma maneira bem organizada.
Mas não basta apenas monitorar. O interessante é oferecer a informação, e ao mesmo tempo, os comentários desse tema nas redes sociais. Quem nunca assistiu a um debate eleitoral na TV, e ao mesmo tempo, acompanhou no Twitter os comentários do público? Por que não oferecer tudo isso junto na mesma tela? Não é verdade que os comentários sobre um assunto muitas vezes oferecem uma visão complementar bastante valiosa, que merece ser lida? Como todos sabem, a comunicação hoje é uma via de mão dupla. A mão única faz parte do passado.
Não é à toa que as empresas jornalísticas sabem que cruzar seus conteúdos com as redes sociais é hoje uma estratégia vital. No Facebook já é possível encontrar aplicativos jornalísticos muito interessantes, como os do Guardian, Washington Post e USA Today.
Neles, a grande sacada é mostrar quais artigos os amigos leram. Eu mesmo já li vários, só por saber que algum amigo leu determinada notícia. Fazia tempo que eu não visitava sites desses três jornais. Entrei recentemente graças à indicação dos amigos. Tais indicações exercem uma influência muito grande em nós. E dá para notar o quanto os websites têm ganho uma audiência inesperada graças a essa “curadoria social”.
E mesmo assim, o papel do editor não desaparece nesses aplicativos. No do Washington Post, por exemplo, na página inicial são apresentadas notícias em destaque, selecionadas pelos jornalistas, e na lateral, são vistas as notícias lidas pelos amigos. O editor desempenha um papel relevante nesse serviço, que está integrado a uma rede social.
Enfim, o tema ainda permite muita discussão. Espero desdobrá-lo ainda mais em futuros posts.